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Numa sociedade há quem produza, quem beneficie da riqueza dos que produzem apesar de praticamente nada produzirem, e há quem especule. Fico contente por os primeiros existirem, conformo-me com os segundos, abomino os terceiros.

Pouco antes da falência do Lehman Brothers, a sua classificação tinha sido revista em AAA (isto é, ah ah ah) pelas tão badaladas agências de rating Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s. Isto quer dizer que estes indivíduos, pagos a peso de ouro para lançarem em excel umas tabelas de rating acerca de tudo o que mexe na bolsa, enganaram-se redondamente a fazer única coisa que deles realmente se esperava (ou que eles nos fizeram sentir que era indispensável)! Não me interessa se o meu mecânico não sabe estrelar um ovo, ou que o meu medico pense que o Souto Moura joga no Sporting e é lateral esquerdo. Eles não são nem cozinheiros, nem comentadores desportivos. Qualquer um destes indivíduos que transacciona na bolsa ficaria extremamente aborrecido se o seu mecânico desse cabo do motor do Bentley. Não o perdoaria, mudaria certamente de mecânico e provavelmente entrava com alguma acção em tribunal. No entanto, continuam a seguir cegamente estes agências de rating na hora de calcular os riscos dos seus investimentos – as mesmas que estão na base de uma crise económica mundial, que assentou numa bolha criada pelos excessivos riscos assumidos por Bancos de Investimento que viveram em pornográfica monogamia com as seguradoras e as agências de rating.

Vamos a ver se nos entendemos: Portugal produz! Tem um PIB de cerca de 160 mil milhões de euros (mais submarino, menos submarino)! Faz parte da União Europeia, e ainda por cima (veja-se la a ousadia) faz também parte do Euro! Alguém no seu perfeito juízo acredita que Portugal vai à bancarrota sendo como tal extremamente arriscado emprestar-lhe dinheiro! Alguém acredita nisto?!! Intelectualmente acho que ninguém credita neste mito, no entanto o comportamento dos mercados (mais uma vez os mercados), mais os investidores, mais os organizadores da Oktoberfest e toda uma série de estranhas personagens histéricas que passam os seus dias em frente ao monitor do seu PC analisando gráficos coloridos, parecem acreditar profundamente – tal como as agências de rating acreditaram na sustentabilidade do Lehman Brothers 5 dias antes do seu colapso.

E com isto somos obrigados a retroceder economicamente mais uma vez. Somos obrigados a ser governados via Wi-Fi a partir de Berlim, porque na verdade sempre fomos governados por incompetentes! Somos obrigados a uma série de reformas que a própria Angela Merkel não tem coragem de desejar aos seus opositores do SPD. Hà quem diga que a Alemanha não  tem que pagar a nossa incompetência governativa e a nossa desregulação orçamental. Claro que não! Mas nós também não  temos culpa de pertencer a um País periférico  cuja economia é altamente dependente do andamento do resto da Europa, e cuja dependência foi ainda mais acentuada depois da adesão a CEE. Nós não temos culpa de nos ter sido retirado o poder controlarmos a nossa própria moeda. Nós não temos culpa de que a troca de umas auto-estradas tenhamos desmantelado muita da nossa capacidade Agrícola e de Pesca, para não chatearmos muito a França e a Espanha. Nós não temos culpa de termos aberto o nosso mercado financeiro de tal forma de acordo com os standard’s europeus, de forma que não tenhamos qualquer tipo de defesa aquando de uma crise globalizada e que não foi – e repito insistentemente – causada por nós! A Alemanha produz e exporta, por isso resistu bem ao impatco da crise financeira. Se assim não fosse, se a Alemanha estivesse tão refém do seu sistema financeiro, como os Irlandeses por exemplo – que eles tantas vezes elogiaram-, neste momento não existira Euro, nem Angela Merkel, nem Wurst a 1, 50 euro nas ruas de Berlim!

A recessão para que iremos ser atirados nos próximos anos, é sem sombra de dúvida resultado de anos e anos de péssimas governações, de compadrios políticos irresponsáveis e ruinosos e de falta de visão de quem nos governa. Mas não só! E isso meus caros, é o que me chateia!

Que eu tenha que levar com Sócrates ou Passos Coelho, com Santos Silvas e Pedro Pereiras, Ferreiras e Nogueiras Leite, é uma condição inerente ao facto de ter nascido Português. Não há nada que possa fazer contra isso, a não ser não votar neles. Agora, eu não tenho que estar a levar todos os santos dias com ameaças de baixa de rating por parte de instituições ainda mais corruptas que a antiga direcção da Liga do Valentim Loureiro. Eu não tenho que me sujeitar aos caprichos de três aglomerados de interesses americanos que vêm regular a “capacidade” de pagamento de crédito de Países Europeus! Acima de tudo, eu não tenho que estar a levar com analises de uma serie de iluminados, que pelos vistos só agora descobriram que Portugal é governado por incompetentes. Eu e muitos Portugueses já descobrimos isso há muito tempo, já baixamos o rating a quase todos os políticos nacionais, e no entanto eles continuam ai!


A Nebulosa Sousa Tavares

O Miguel começa a sua crónica no expresso deste sábado, dizendo que no dia 12 de Março esteve preso à televisão. Isto deixou logo na expectativa todos aqueles que o ouviram dias antes criticar a manifestação Geração à Rasca! Mas eis que o autor nos surpreende (fruto também da sua capacidade dramática aguda desenvolvida nos últimos anos no campo literário) dizendo que esteve colado à televisão, mas…… à espera de ver imagens acerca do terramoto/tsunami/desastre nuclear no Japão. E que, veja-se lá, pouco viu da tragédia porque as televisões insistiram em mostrar qualquer coisa que ia acontecendo em Lisboa, Porto e outras capitais de distrito. Qualquer coisa me diz que o Miguel quis fazer uma crónica rasteira e chantagem sentimental usando uma catástrofe como trunfo de arremesso, na construção de um texto destinado a atacar a manifestação que havia minimizado dias antes como uma brincadeira de miúdos. Mas, como parto do princípio que ninguém desce a esse nível de azedume e canalhice para perpetuar uma vingança pessoal, eu suponho que ele estava mesmo a ser sincero, e queria de facto ver o que se passava no Japão – até porque a tal manifestação era coisa menor como todos sabemos! Por isso, queria deixar aqui um pequeno conselho ao Miguel: Instale o mais rapidamente a Meo ou a Zon! No pacote de canais existem umas coisas que se chamam CNN e BBC News. Normalmente fazem uma cobertura noticiosa internacional, e assim o Miguel não é obrigado a ver a televisão Portuguesa! Alias, se tivesse estes canais, nem precisava de esperar ate sábado para saber notícias do Japão – eu próprio na sexta-feira de manha vi em directo o tsunami invadir Sendai!

Outra coisa interessante, é que no seu artigo o Miguel define a manifestação – a que ele foi obrigado a ver através da televisão – como uma nebulosa! Ora, há aqui uma imprecisão e um toque de surrealismo. Imprecisão porque devido ao elevado número de participantes que o Miguel não previra, ele deveria actualizar a classificação para um qualquer elemento cósmico maior do que a nebulosa! O toque surrealista, é aquele paladar estranho com que se fica na boca, quando se ouve chamar nebulosa a uma manifestação, um individuo do qual não se conhece orientação politica, ou propriamente qualquer ideia concreta para o País. Alias, estamos a falar de alguém que se especializou na critica ao quilo, apontando-nos ano-apos-ano as razoes pelas quais nos somos tão atrasados, tão ignorantes e sem capacidade de alguma vez atingir os níveis dos nossos parceiros europeus. Ora, eu que sempre li religiosamente o Miguel, soltando muitas vezes um ámen no final, fiquei cá para mim a pensar que afinal de contas todas aquelas comparações com o resto do mundo não têm passado de suposições ou criações literárias, porque como se pôde constatar o Miguel não vê sequer a CNN ou a BBC News…

P.S: O Miguel diz que não escreve de acordo com o acordo (passo a redundância) ortográfico
Eu queria esclarecer que escrevo de acordo com o FLIP:

http://www.flip.pt/FLiP-On-line/Corrector-ortografico-e-sintactico.aspx


O ZE é fixe!

Renault Z.E.

 


Uma Revolução por dia, nem sabe o bem que lhe fazia!

A coisa chata de fechar o mundo no armário por uma semana e meia, que foi o que fiz ultimamente devido a compromissos profissionais, é que quando lhe abrimos a porta novamente, podemos já não o reconhecer, principalmente numa altura em que este vive em perfeita convulsão Enquanto estava fechado por detrás daquelas velhas portas de madeira, sentia a sua vibração, sabia que as coisas estavam a acontecer, mas apenas me pude concentrar em duas coisas: trabalhar e dormir – embora me pareça que não tenha conseguido fazer bem nenhuma das duas! Mas pancadas mudas continuavam a reverberar (uma palavra que ‘soa’ sempre bem) na minha cabeça sem que nada pudesse fazer, tornando-se uma inevitabilidade. É óbvio que a vontade de atacar kadaffi e o seu filho com um raspador de cenouras enferrujado nunca desaparece, mas quando nos afastamos do mundo por mais do que uns instantes, entramos num coma vegetativo como se a parte crítica do nosso cérebro andasse a namorar um frasco de ansiolíticos E é isso que me assusta!
Assusta-me saber que se o mundo dependesse de mim para travar a sua derradeira batalha, teria que me ligar à última da hora a perguntar onde é que estava! Pior, se calhar teria que deixar mensagem no voice mail porque normalmente perco quase todas as chamadas.
Por isso sinto uma profunda admiração por todos aqueles que acordam todos os dias com aquela vontade de mudar o mundo, sempre inalterável! Todos aqueles que têm o desprendimento de lutar pelos outros e não apenas pelos seus interesses, e que encaram o dia-a-dia como o campo de batalha das maiores às mais pequenas coisas! Foi dessa luta incessante e presente que a sociedade Portuguesa conseguiu numa década evoluir em matérias tão sensíveis quanto a despenalização do aborto, aprovando um referendo que dez anos antes havia chumbado! Essa luta incessante e por vezes invisível, é a responsável para que aos poucos o ambiente seja mais respirável, para que haja laivos de humanidade onde por vezes menos esperamos. Os que emprestam a sua vida em favor dos outros, a juros altíssimos para o seu próprio bem-estar físico, são exactamente os mesmos que nunca irão cobrar essa divida à sociedade. Por outro lado, todos nos que vivemos a nossa vida esquecendo as tragédias que nos vão rodeando, cobrindo com um manto de invisibilidade o pouco que ainda nos vai chocando, somos os primeiros a cobrar os juros e a divida à sociedade de cada vez que praticamos um mísero acto de solidariedade humana ou mesmo ideológica!
É esse o vazio em que vivo eu e os restantes 98% da sociedade! Um vazio cheio de palavras e declarações de interesse.
Este texto desinspirado, por causa de uma serie de factores incontroláveis que vão desde o estado do tempo à imprevisibilidade do vulcão islandês, não é mais do que uma homenagem pobre e preguiçosa a todos aqueles que nos mais diversos meios nos vão diariamente inspirando com a sua capacidade de acção, face ao nosso actual estado de aceitação contemplativa.


Um dia ainda irei escrever algo acerca do “The king of limbs”…

 

Aviso a todos os amantes de Radiohead (eu incluído):
Não leiam o seguinte texto, porque a seguir entrarei a 100% no campo do subjectivo.

Aqui fica uma análise sumária acerca do novo álbum “The king of Limbs”
Devo dizer que o interesse desta crónica é praticamente nulo, uma vez que eu próprio detesto ler crítica musical. De qualquer das formas, como hoje estava a chover e por uns instantes chegou a  nevar, cá vai:

1. Bloom – É a música de introdução do álbum, e pouco mais do que isso. Um pouco monótona e demasiado previsível. Depois de se ouvir várias vezes, poucos são os pequenos detalhes que nos escaparam nas duas primeiras audições;

2. Morning Mr Magpie – Começa bem, ritmicamente estimulante mas depois vai-se perdendo e apesar de ser um pouco mais intricada do que a “Bloom”, a estrutura é também bastante previsível, tendo em conta que estamos a falar de uns gajos que se chamam Radiohead!

3. Little By Little, as coisas começam a aquecer. Primeira grande aparição das guitarras numa música bem ao estilo que estes gajos sabem melhor fazer. Variações de intensidade nos “refrões” (falar de refrões em radiohead é um pouco naïve, mas ok), pequenas nuances que dão muito mais detalhe a esta música quando comparada com as outras.

4. Feral – Trajectória descendente. Ao nível da primeira música, mas ainda mais cinzenta. Suponho que seja para enfatizar o contraste com a música que se segue – A “lotus Flower”!

5. Lotus Flower – Boom, depois de céus cinzentos e nuvens baixas eis que ela chega. É uma composição excelente a todos os níveis. Ritmicamente poderosa e por vezes assimétrica (aquele contra-ritmo constante provocado por um som que se assemelha a palmas, é brutal), balançada pela serenidade do resto da estrutura da música, é o orgasmo do álbum, apesar das músicas anteriores não serem propriamente os melhores preliminares.

6. Codex – É o cigarro depois do sexo. Harmoniosa, límpida, compositivamente balançada, é para ouvir à janela, olhando a cidade e transformando mentalmente este dia cinzento numa tarde solarenga de primavera. Esta música causa-me o mesmo arrepio na espinha que a “Piramyd song” do “Amnesiac”.

7. Give up the Ghost – descida vertical, a pique mesmo! Á imagem das duas primeiras. Gasta-se rapidamente após duas utilizações;

8. Separator – Final do Álbum. Vale pelo baixo, de resto pode-se fazer copy paste do que escrevi acerca das primeiras músicas e da que a antecede. Dá-me a sensação que esta música não fecha o álbum, e tendo em conta alguns rumores de que os Radiohead vão lançar brevemente novo álbum, eu diria que esta música é um “to be continued”…

Diria, e depois de ouvir várias vezes o álbum, que este fica muito longe de “In Rainbows” – para mim o melhor álbum dos Radiohead no séc. XXI. No entanto, parece-me melhor, mais completo e diversificado do que o “Hail to the Thief”. Mas quem esperava uma continuidade da sonoridade de “In Rainbows” e ficou um pouco desiludido com este, não deve esquecer que estamos a falar de Radiohead, ou seja, acomodação é palavra proibida, e é isso que os torna tão diferentes de quase tudo o que se vai fazendo.

Long live Radiohead!


que tipo de biltre nojento, desprezível e desumano, bombardeia o seu próprio povo?

O sol é como uma enorme nuvem de esperança, por entre os telhados manchados da barbárie…

Por entre a cobardia envergonhada de quem segura archotes que iluminam passagens, por entre estreitas cavernas repletas de medos, perecem la fora, expostos a esse sol libertador, os que ousam enfrentar a escuridão…

 


Vazio

Tinha acabado de voltar.

No vazio do quarto sentia a pesada respiração de um silêncio mais espesso que os seus próprios pensamentos.

Tentou procurar o interruptor, mas não o encontrou. A mão vagueou de cor entre a suave textura da parede, mas em vão. Onde outrora existira um interruptor, existia agora apenas uma superfície uniforme, assustadoramente uniforme.

- Não vale a pena! – sussurrou uma voz estranha.

Entre a confusão e a aceitação de que estaria no seu quarto, e no quarto de um estranho ao mesmo tempo, sentiu o seu próprio corpo responder secamente e sem temor, como se a pergunta fosse combinada previamente:

- Eu sei que não, só me queria conformar com essa evidência.

Persistiu um ligeiro silêncio e o desconforto de saber que era um actor num cenário, onde ele próprio nem a iluminação controlava.

- Faz-me um favor, senta-te aqui ao meu lado! – Pediu a voz num tom de ameaçador reconforto.

Obedeceu deixando o seu corpo avançar sem temor e dúvida por entre uma espessa escuridão que, aos poucos deixava de o ser.

Duas cadeiras, uma vazia e uma outra ocupada por um vulto que ele sabia ser o possuidor daquela voz que o impelia a avançar.

Sentou-se, e um novo silêncio desceu sobre os dois. Mas desta vez, já não restavam dúvidas, mas sim a aceitação de que a escolha fora feita. E ele, era o escolhido.

- Sabes porque estou aqui! – Perguntou o vulto.

- Sim, soube a partir do momento em que não encontrei o interruptor.

- Então, podemos poupar tempo e avançar com isto! – Disse enquanto se levantava decidida e pesadamente.

- Só queria saber, porquê eu, e porquê agora? – Perguntava a réstia de inconformidade que ainda habitava o seu corpo.

O vulto fitou-o directamente pela primeira vez, e na profundidade daquele manto sem rosto, ressoou uma voz cansada e gasta.

- Pensava que hoje seria a primeira vez que não me fariam essa pergunta. – Exclamava por entre um desabafo resignado.

Perante aquela pequena inconformada censura, continuou seca e decididamente, após deixar alguns segundos tornarem aquele momento mais solene:

- A escolha, é em si mesma uma escolha. Não tem lógica, é impessoal e aleatória. Nasce da necessidade de haver um balanço entre os que vêm e os que vão. Se a escolha é incompreensível para uma mente habituada a ler nos manuais a que distancia vai pousar a sua próxima passada, então é melhor que seja aceite assim – como uma escolha. Há sempre alguns que aproveitarão esta escolha para se repensarem, para renascerem desta bulimia existencial em que acordam cada dia. Esses, poderão enquanto redireccionam as suas prioridades, compreender que cada momento a mais entre aqueles que amam, é no fundo apenas fruto de uma mísera e simples escolha – sempre aleatória e imprevisível

Solene e ecoando onde outrora não havia eco, o vulto voltou a erguer-se estendendo-lhe a mão.

- É possível transmitir isso aos que ficaram? – Perguntou curioso.

- Ora aí está uma pergunta que não me fazem muitas vezes – Respondeu cordialmente a voz enquanto atravessavam a porta, que monocordicamente enquadrava uma réstia de claridade, visível por entre o espesso manto de escuridão.


Bloco de Esquerda – Pride & Prejudice

Quando o bloco surgiu pela primeira vez no panorama eleitoral português, muitos tradicionais votantes de esquerda (eu incluído) sentiram que algo novo começava a renovar o status quo da forma de fazer política em Portugal. Votamos no Bloco, fizemo-lo expandir, chegar ao Parlamento, ser escutado nos media, trazer a sua agenda para o centro do debate político.

Sentíamo-nos representados pela irreverência do combate de ideias, pela coragem de discutir questões fracturantes, pela sensação de que havia uma política que falava à nossa geração.

Crescemos.

Depois da adolescência, e entrados no mercado de trabalho, apercebemo-nos de que a economia (a real, e não aquela que todos idealizamos) é o tema que indubitavelmente prenderá a nossa atenção. Somos confrontados com a precariedade, com a falta de perspectivas de futuro para toda uma geração. Mas até aí não há problema, podemos contar com o Bloco para as batalhas que se avizinham.

Passamos a ouvir falar todos os dias de economia, crise de dívida soberana, combate ao endividamento excessivo, redução do défice orçamental. Olhamos para o programa eleitoral do Bloco à procura de respostas (sim respostas, porque em tempos de crise não basta só saber enunciar as questões) e percebemos pela primeira vez em anos, que a ilusão acaba ali.

Todos nós, que não acreditamos que a economia se desenvolva apenas com o investimento do estado, que não vemos com bons olhos a Nacionalização da Energia ou a “subordinação da banca a políticas públicas de crédito”, que não acreditamos que num país onde se produz tão pouco se possa acreditar realmente nas 35 horas de trabalho semanais, ficamos ideologicamente desamparados.

Todos nós, que achamos estranho que se estaleçam objectivos orçamentais em que “o crescimento real anual da despesa corrente não deve ser superior a 2%;” porque “as despesas de investimento na qualificação do trabalho, serviço público de saúde e criação de capacidade produtiva não são incluídas no défice”, perguntamo-nos em que União Europeia vive quem escreveu este programa!

Desiludidos, apercebemo-nos porque o Bloco sempre evitou falar em medidas concretas para a Economia, mas ainda assim resistimos um pouco mais, porque nos recusámos a votar num PS tão instrumentalizado pelos grupos de interesses que o rodeiam, e tão órfão de qualquer matriz ideológica de esquerda. E fazemo-lo porque, apesar do planeta estranho onde vivem os redactores do programa do Bloco para a Economia, ainda há uma certa dignidade na forma de fazer política que se mantém.

Mas depois vem uma estranha e bizarra Moção de Censura! E os jogos políticos! E o arremesso no balde do lixo daquilo que ainda diferenciava o Bloco dos outros Partidos – a crença de que a política não se resume a piruetas nos bastidores.

O Bloco, perder-me-á como eleitor, e a muitos outros que esperam por algo ou alguém que ocupe o espaço entre a esquerda radical e o centro do PS de Sócrates.

Se o Bloco não quiser ocupar esse papel de esquerda verdadeiramente moderna, alguém acabará por o fazer, e nessa altura o bloco começara a definhar, porque a novidade terá passado, anos de luta ideológica não terão chegado a medidas verdadeiramente concretas, e o espaço do PCP, esse, manter-se-á sempre inalterado;

Porque somos cada vez mais os que ansiamos por uma Esquerda que aceite a economia de mercado não como um mal, mas como uma fonte de oportunidades ao serviço de um estado que ofereça mais protecção social, melhor educação e melhores cuidados de saúde (e não me venham com purezas ideológicas de que só quem é anticapitalista é que é de esquerda, porque isso não é mais do que tirania intelectual). Uma esquerda que perca esse preconceito fracturante contra os privados, como se o lucro fosse uma aspiração satânica; uma esquerda que saiba capitalizar a importância desse mesmo lucro, para a batalha contra a pobreza e a discriminação; E acima de tudo uma esquerda que queira verdadeiramente governar, que possa ser sinónimo de estabilidade politica e parceiro de reformas essenciais, para que o PS não seja sempre obrigado a fazer coligações à direita. Ponham os olhos nessa Europa fora e digam-me qual daqueles Países mais evoluídos, ricos, justos e com menor fosso entre ricos e pobres (que é aquilo a que todos aspiramos) é que tem um único partido a governar. Eu digo-vos: Nenhum! Porque se governa em coligação, porque se governa para a maioria e não para uma minoria de puristas ideológicos. É isso a democracia e a representatividade, porque a política apesar de se fazer também na rua, sela-se no Parlamento!

P.S: Os excertos foram retirados do Programa eleitoral do Bloco de Esquerda (páginas 53-57) que pode ser encontrado aqui:

http://www.bloco.org/media/programabe.pdf

P.S2: Amigos do Bloco de Esquerda, desculpem se têm que levar com estes dois “P.S.” – eu sei que um já vos chateia o suficiente – mas faço este segundo só para vos dizer que continuo a gostar muito de todos vocês!


Saramago e os Deolinda

“Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.”

José Saramago in “Poema à boca fechada”

A maior conquista da música dos Deolinda (“Que Parva que eu sou”), foi não só a de criar uma histeria tanto á esquerda quanto á direita, como também a de ter aparecido numa altura de revoluções populares na Túnisa e no Egipto. Tudo isto combinado faz naturalmente crescer a esperança de uns e os receios de outros…


A vida em suspenso…

Existe uma sensação que nos desgasta até às entranhas, que nos corrói de forma angustiante, que se apodera da mente e nos faz duvidar em cada passo vacilante.
A incerteza.
A incerteza de saber o que nos espera, a incerteza de saber como e quando avançar. A incerteza de sabermos se podemos eventualmente avançar…
É assim a vida de milhares de jovens que se vêm a braços com uma precariedade que lhes tolhe as expectativas e reveste o futuro de uma capa de transcendência tal, que os faz duvidar se alguma vez tiveram direito a “um futuro”.
Muitos crêem que apenas devem e não têm direito a nada. Porque foram anos a servir de cobaia às mais bizarras experiências de ensino, anos onde se passou de propinas quase inexistentes para propinas insuportáveis aos mais carenciados, onde para se receber uma bolsa de estudo é quase preciso declarar como residência oficial a ponte mais próxima! Para que depois lhes digam que afinal aquilo para que estudaram não foi mais do que uma trivialidade, e que se deviam dar por satisfeitos por terem trabalho. O futuro foi adiado quando nos disseram – estudem! E é novamente adiado quando perguntam depois, porque estudamos quando sabíamos que o futuro seria incerto! Porque um jovem com 18 anos deve ser apenas uma besta “útil”. Deve escolher não continuar os estudos, ou escolher estudar apenas aquilo que lhe dê “saída profissional” (arrepiante expressão cómico-trágica). Estranha liberdade, esta!
E o que é então esta precariedade?
Não é mais do que a incerteza de que falei acima. É o futuro adiado através de um mecanismo de auto-exclusão, que se alimenta da umbilical dependência de quem vive fragilizado dia-apos-dia.
A minha geração é capaz, mais capaz provavelmente que qualquer uma das anteriores, mas vive relegada ao espaço em lhe deixaram viver.
A geração dos nossos Pais deu-nos tudo de facto, menos a possibilidade de sermos realmente independentes. Muitos acham que nos deveríamos resignar ao que temos actualmente. Que somos mal-agradecidos por nos termos formado numa área, e acabarmos a reclamar porque  trabalhamos numa outra. Que não percebemos a importância do estudo, por si só e a sua transcendência metafísica, porque convenha-se dá sempre jeito saber recitar Voltaire numa caixa de supermercado, ou divagar acerca da evolução macroeconómica enquanto se serve 3 finos e um prato de caracóis Que fomos mal habituados e que na verdade gostamos é de viver em casa da família, e tem razão porque na verdade restam-nos sempre duas alternativas – partilhar um apartamento com outras 6 pessoas para o resto da vida ou imigrar. Opções essas há sempre!
É uma vida em suspenso que ameaça perpetuar-se caso tudo continue tal como esta. Alias, ira piorar. Quando num concurso já oferecem como “prémio” um estágio não remunerado, pouco mais se pode esperar.
Agora depende de cada um aceitar esta exclusão galopante ou começar verdadeiramente a reclamar um pouco mais de decência nas cada vez mais pornográficas dependências laborais.
Como fazê-lo?! Não tenho honestamente uma receita, mas acho que podíamos começar por aceitar que temos todo o direito a protestar e acima de tudo de ser livres.

Carmela Garcia, Ophelia III, 2001


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