Vazio

Tinha acabado de voltar.

No vazio do quarto sentia a pesada respiração de um silêncio mais espesso que os seus próprios pensamentos.

Tentou procurar o interruptor, mas não o encontrou. A mão vagueou de cor entre a suave textura da parede, mas em vão. Onde outrora existira um interruptor, existia agora apenas uma superfície uniforme, assustadoramente uniforme.

– Não vale a pena! – sussurrou uma voz estranha.

Entre a confusão e a aceitação de que estaria no seu quarto, e no quarto de um estranho ao mesmo tempo, sentiu o seu próprio corpo responder secamente e sem temor, como se a pergunta fosse combinada previamente:

– Eu sei que não, só me queria conformar com essa evidência.

Persistiu um ligeiro silêncio e o desconforto de saber que era um actor num cenário, onde ele próprio nem a iluminação controlava.

– Faz-me um favor, senta-te aqui ao meu lado! – Pediu a voz num tom de ameaçador reconforto.

Obedeceu deixando o seu corpo avançar sem temor e dúvida por entre uma espessa escuridão que, aos poucos deixava de o ser.

Duas cadeiras, uma vazia e uma outra ocupada por um vulto que ele sabia ser o possuidor daquela voz que o impelia a avançar.

Sentou-se, e um novo silêncio desceu sobre os dois. Mas desta vez, já não restavam dúvidas, mas sim a aceitação de que a escolha fora feita. E ele, era o escolhido.

– Sabes porque estou aqui! – Perguntou o vulto.

– Sim, soube a partir do momento em que não encontrei o interruptor.

– Então, podemos poupar tempo e avançar com isto! – Disse enquanto se levantava decidida e pesadamente.

– Só queria saber, porquê eu, e porquê agora? – Perguntava a réstia de inconformidade que ainda habitava o seu corpo.

O vulto fitou-o directamente pela primeira vez, e na profundidade daquele manto sem rosto, ressoou uma voz cansada e gasta.

– Pensava que hoje seria a primeira vez que não me fariam essa pergunta. – Exclamava por entre um desabafo resignado.

Perante aquela pequena inconformada censura, continuou seca e decididamente, após deixar alguns segundos tornarem aquele momento mais solene:

– A escolha, é em si mesma uma escolha. Não tem lógica, é impessoal e aleatória. Nasce da necessidade de haver um balanço entre os que vêm e os que vão. Se a escolha é incompreensível para uma mente habituada a ler nos manuais a que distancia vai pousar a sua próxima passada, então é melhor que seja aceite assim – como uma escolha. Há sempre alguns que aproveitarão esta escolha para se repensarem, para renascerem desta bulimia existencial em que acordam cada dia. Esses, poderão enquanto redireccionam as suas prioridades, compreender que cada momento a mais entre aqueles que amam, é no fundo apenas fruto de uma mísera e simples escolha – sempre aleatória e imprevisível

Solene e ecoando onde outrora não havia eco, o vulto voltou a erguer-se estendendo-lhe a mão.

– É possível transmitir isso aos que ficaram? – Perguntou curioso.

– Ora aí está uma pergunta que não me fazem muitas vezes – Respondeu cordialmente a voz enquanto atravessavam a porta, que monocordicamente enquadrava uma réstia de claridade, visível por entre o espesso manto de escuridão.

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