A Nebulosa Sousa Tavares

O Miguel começa a sua crónica no expresso deste sábado, dizendo que no dia 12 de Março esteve preso à televisão. Isto deixou logo na expectativa todos aqueles que o ouviram dias antes criticar a manifestação Geração à Rasca! Mas eis que o autor nos surpreende (fruto também da sua capacidade dramática aguda desenvolvida nos últimos anos no campo literário) dizendo que esteve colado à televisão, mas…… à espera de ver imagens acerca do terramoto/tsunami/desastre nuclear no Japão. E que, veja-se lá, pouco viu da tragédia porque as televisões insistiram em mostrar qualquer coisa que ia acontecendo em Lisboa, Porto e outras capitais de distrito. Qualquer coisa me diz que o Miguel quis fazer uma crónica rasteira e chantagem sentimental usando uma catástrofe como trunfo de arremesso, na construção de um texto destinado a atacar a manifestação que havia minimizado dias antes como uma brincadeira de miúdos. Mas, como parto do princípio que ninguém desce a esse nível de azedume e canalhice para perpetuar uma vingança pessoal, eu suponho que ele estava mesmo a ser sincero, e queria de facto ver o que se passava no Japão – até porque a tal manifestação era coisa menor como todos sabemos! Por isso, queria deixar aqui um pequeno conselho ao Miguel: Instale o mais rapidamente a Meo ou a Zon! No pacote de canais existem umas coisas que se chamam CNN e BBC News. Normalmente fazem uma cobertura noticiosa internacional, e assim o Miguel não é obrigado a ver a televisão Portuguesa! Alias, se tivesse estes canais, nem precisava de esperar ate sábado para saber notícias do Japão – eu próprio na sexta-feira de manha vi em directo o tsunami invadir Sendai!

Outra coisa interessante, é que no seu artigo o Miguel define a manifestação – a que ele foi obrigado a ver através da televisão – como uma nebulosa! Ora, há aqui uma imprecisão e um toque de surrealismo. Imprecisão porque devido ao elevado número de participantes que o Miguel não previra, ele deveria actualizar a classificação para um qualquer elemento cósmico maior do que a nebulosa! O toque surrealista, é aquele paladar estranho com que se fica na boca, quando se ouve chamar nebulosa a uma manifestação, um individuo do qual não se conhece orientação politica, ou propriamente qualquer ideia concreta para o País. Alias, estamos a falar de alguém que se especializou na critica ao quilo, apontando-nos ano-apos-ano as razoes pelas quais nos somos tão atrasados, tão ignorantes e sem capacidade de alguma vez atingir os níveis dos nossos parceiros europeus. Ora, eu que sempre li religiosamente o Miguel, soltando muitas vezes um ámen no final, fiquei cá para mim a pensar que afinal de contas todas aquelas comparações com o resto do mundo não têm passado de suposições ou criações literárias, porque como se pôde constatar o Miguel não vê sequer a CNN ou a BBC News…

P.S: O Miguel diz que não escreve de acordo com o acordo (passo a redundância) ortográfico
Eu queria esclarecer que escrevo de acordo com o FLIP:

http://www.flip.pt/FLiP-On-line/Corrector-ortografico-e-sintactico.aspx


O ZE é fixe!

Renault Z.E.

 


Uma Revolução por dia, nem sabe o bem que lhe fazia!

A coisa chata de fechar o mundo no armário por uma semana e meia, que foi o que fiz ultimamente devido a compromissos profissionais, é que quando lhe abrimos a porta novamente, podemos já não o reconhecer, principalmente numa altura em que este vive em perfeita convulsão Enquanto estava fechado por detrás daquelas velhas portas de madeira, sentia a sua vibração, sabia que as coisas estavam a acontecer, mas apenas me pude concentrar em duas coisas: trabalhar e dormir – embora me pareça que não tenha conseguido fazer bem nenhuma das duas! Mas pancadas mudas continuavam a reverberar (uma palavra que ‘soa’ sempre bem) na minha cabeça sem que nada pudesse fazer, tornando-se uma inevitabilidade. É óbvio que a vontade de atacar kadaffi e o seu filho com um raspador de cenouras enferrujado nunca desaparece, mas quando nos afastamos do mundo por mais do que uns instantes, entramos num coma vegetativo como se a parte crítica do nosso cérebro andasse a namorar um frasco de ansiolíticos E é isso que me assusta!
Assusta-me saber que se o mundo dependesse de mim para travar a sua derradeira batalha, teria que me ligar à última da hora a perguntar onde é que estava! Pior, se calhar teria que deixar mensagem no voice mail porque normalmente perco quase todas as chamadas.
Por isso sinto uma profunda admiração por todos aqueles que acordam todos os dias com aquela vontade de mudar o mundo, sempre inalterável! Todos aqueles que têm o desprendimento de lutar pelos outros e não apenas pelos seus interesses, e que encaram o dia-a-dia como o campo de batalha das maiores às mais pequenas coisas! Foi dessa luta incessante e presente que a sociedade Portuguesa conseguiu numa década evoluir em matérias tão sensíveis quanto a despenalização do aborto, aprovando um referendo que dez anos antes havia chumbado! Essa luta incessante e por vezes invisível, é a responsável para que aos poucos o ambiente seja mais respirável, para que haja laivos de humanidade onde por vezes menos esperamos. Os que emprestam a sua vida em favor dos outros, a juros altíssimos para o seu próprio bem-estar físico, são exactamente os mesmos que nunca irão cobrar essa divida à sociedade. Por outro lado, todos nos que vivemos a nossa vida esquecendo as tragédias que nos vão rodeando, cobrindo com um manto de invisibilidade o pouco que ainda nos vai chocando, somos os primeiros a cobrar os juros e a divida à sociedade de cada vez que praticamos um mísero acto de solidariedade humana ou mesmo ideológica!
É esse o vazio em que vivo eu e os restantes 98% da sociedade! Um vazio cheio de palavras e declarações de interesse.
Este texto desinspirado, por causa de uma serie de factores incontroláveis que vão desde o estado do tempo à imprevisibilidade do vulcão islandês, não é mais do que uma homenagem pobre e preguiçosa a todos aqueles que nos mais diversos meios nos vão diariamente inspirando com a sua capacidade de acção, face ao nosso actual estado de aceitação contemplativa.