Uma Revolução por dia, nem sabe o bem que lhe fazia!

A coisa chata de fechar o mundo no armário por uma semana e meia, que foi o que fiz ultimamente devido a compromissos profissionais, é que quando lhe abrimos a porta novamente, podemos já não o reconhecer, principalmente numa altura em que este vive em perfeita convulsão Enquanto estava fechado por detrás daquelas velhas portas de madeira, sentia a sua vibração, sabia que as coisas estavam a acontecer, mas apenas me pude concentrar em duas coisas: trabalhar e dormir – embora me pareça que não tenha conseguido fazer bem nenhuma das duas! Mas pancadas mudas continuavam a reverberar (uma palavra que ‘soa’ sempre bem) na minha cabeça sem que nada pudesse fazer, tornando-se uma inevitabilidade. É óbvio que a vontade de atacar kadaffi e o seu filho com um raspador de cenouras enferrujado nunca desaparece, mas quando nos afastamos do mundo por mais do que uns instantes, entramos num coma vegetativo como se a parte crítica do nosso cérebro andasse a namorar um frasco de ansiolíticos E é isso que me assusta!
Assusta-me saber que se o mundo dependesse de mim para travar a sua derradeira batalha, teria que me ligar à última da hora a perguntar onde é que estava! Pior, se calhar teria que deixar mensagem no voice mail porque normalmente perco quase todas as chamadas.
Por isso sinto uma profunda admiração por todos aqueles que acordam todos os dias com aquela vontade de mudar o mundo, sempre inalterável! Todos aqueles que têm o desprendimento de lutar pelos outros e não apenas pelos seus interesses, e que encaram o dia-a-dia como o campo de batalha das maiores às mais pequenas coisas! Foi dessa luta incessante e presente que a sociedade Portuguesa conseguiu numa década evoluir em matérias tão sensíveis quanto a despenalização do aborto, aprovando um referendo que dez anos antes havia chumbado! Essa luta incessante e por vezes invisível, é a responsável para que aos poucos o ambiente seja mais respirável, para que haja laivos de humanidade onde por vezes menos esperamos. Os que emprestam a sua vida em favor dos outros, a juros altíssimos para o seu próprio bem-estar físico, são exactamente os mesmos que nunca irão cobrar essa divida à sociedade. Por outro lado, todos nos que vivemos a nossa vida esquecendo as tragédias que nos vão rodeando, cobrindo com um manto de invisibilidade o pouco que ainda nos vai chocando, somos os primeiros a cobrar os juros e a divida à sociedade de cada vez que praticamos um mísero acto de solidariedade humana ou mesmo ideológica!
É esse o vazio em que vivo eu e os restantes 98% da sociedade! Um vazio cheio de palavras e declarações de interesse.
Este texto desinspirado, por causa de uma serie de factores incontroláveis que vão desde o estado do tempo à imprevisibilidade do vulcão islandês, não é mais do que uma homenagem pobre e preguiçosa a todos aqueles que nos mais diversos meios nos vão diariamente inspirando com a sua capacidade de acção, face ao nosso actual estado de aceitação contemplativa.

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