Bloco de Esquerda – Pride & Prejudice

Quando o bloco surgiu pela primeira vez no panorama eleitoral português, muitos tradicionais votantes de esquerda (eu incluído) sentiram que algo novo começava a renovar o status quo da forma de fazer política em Portugal. Votamos no Bloco, fizemo-lo expandir, chegar ao Parlamento, ser escutado nos media, trazer a sua agenda para o centro do debate político.

Sentíamo-nos representados pela irreverência do combate de ideias, pela coragem de discutir questões fracturantes, pela sensação de que havia uma política que falava à nossa geração.

Crescemos.

Depois da adolescência, e entrados no mercado de trabalho, apercebemo-nos de que a economia (a real, e não aquela que todos idealizamos) é o tema que indubitavelmente prenderá a nossa atenção. Somos confrontados com a precariedade, com a falta de perspectivas de futuro para toda uma geração. Mas até aí não há problema, podemos contar com o Bloco para as batalhas que se avizinham.

Passamos a ouvir falar todos os dias de economia, crise de dívida soberana, combate ao endividamento excessivo, redução do défice orçamental. Olhamos para o programa eleitoral do Bloco à procura de respostas (sim respostas, porque em tempos de crise não basta só saber enunciar as questões) e percebemos pela primeira vez em anos, que a ilusão acaba ali.

Todos nós, que não acreditamos que a economia se desenvolva apenas com o investimento do estado, que não vemos com bons olhos a Nacionalização da Energia ou a “subordinação da banca a políticas públicas de crédito”, que não acreditamos que num país onde se produz tão pouco se possa acreditar realmente nas 35 horas de trabalho semanais, ficamos ideologicamente desamparados.

Todos nós, que achamos estranho que se estaleçam objectivos orçamentais em que “o crescimento real anual da despesa corrente não deve ser superior a 2%;” porque “as despesas de investimento na qualificação do trabalho, serviço público de saúde e criação de capacidade produtiva não são incluídas no défice”, perguntamo-nos em que União Europeia vive quem escreveu este programa!

Desiludidos, apercebemo-nos porque o Bloco sempre evitou falar em medidas concretas para a Economia, mas ainda assim resistimos um pouco mais, porque nos recusámos a votar num PS tão instrumentalizado pelos grupos de interesses que o rodeiam, e tão órfão de qualquer matriz ideológica de esquerda. E fazemo-lo porque, apesar do planeta estranho onde vivem os redactores do programa do Bloco para a Economia, ainda há uma certa dignidade na forma de fazer política que se mantém.

Mas depois vem uma estranha e bizarra Moção de Censura! E os jogos políticos! E o arremesso no balde do lixo daquilo que ainda diferenciava o Bloco dos outros Partidos – a crença de que a política não se resume a piruetas nos bastidores.

O Bloco, perder-me-á como eleitor, e a muitos outros que esperam por algo ou alguém que ocupe o espaço entre a esquerda radical e o centro do PS de Sócrates.

Se o Bloco não quiser ocupar esse papel de esquerda verdadeiramente moderna, alguém acabará por o fazer, e nessa altura o bloco começara a definhar, porque a novidade terá passado, anos de luta ideológica não terão chegado a medidas verdadeiramente concretas, e o espaço do PCP, esse, manter-se-á sempre inalterado;

Porque somos cada vez mais os que ansiamos por uma Esquerda que aceite a economia de mercado não como um mal, mas como uma fonte de oportunidades ao serviço de um estado que ofereça mais protecção social, melhor educação e melhores cuidados de saúde (e não me venham com purezas ideológicas de que só quem é anticapitalista é que é de esquerda, porque isso não é mais do que tirania intelectual). Uma esquerda que perca esse preconceito fracturante contra os privados, como se o lucro fosse uma aspiração satânica; uma esquerda que saiba capitalizar a importância desse mesmo lucro, para a batalha contra a pobreza e a discriminação; E acima de tudo uma esquerda que queira verdadeiramente governar, que possa ser sinónimo de estabilidade politica e parceiro de reformas essenciais, para que o PS não seja sempre obrigado a fazer coligações à direita. Ponham os olhos nessa Europa fora e digam-me qual daqueles Países mais evoluídos, ricos, justos e com menor fosso entre ricos e pobres (que é aquilo a que todos aspiramos) é que tem um único partido a governar. Eu digo-vos: Nenhum! Porque se governa em coligação, porque se governa para a maioria e não para uma minoria de puristas ideológicos. É isso a democracia e a representatividade, porque a política apesar de se fazer também na rua, sela-se no Parlamento!

P.S: Os excertos foram retirados do Programa eleitoral do Bloco de Esquerda (páginas 53-57) que pode ser encontrado aqui:

http://www.bloco.org/media/programabe.pdf

P.S2: Amigos do Bloco de Esquerda, desculpem se têm que levar com estes dois “P.S.” – eu sei que um já vos chateia o suficiente – mas faço este segundo só para vos dizer que continuo a gostar muito de todos vocês!

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