A vida em suspenso…

Existe uma sensação que nos desgasta até às entranhas, que nos corrói de forma angustiante, que se apodera da mente e nos faz duvidar em cada passo vacilante.
A incerteza.
A incerteza de saber o que nos espera, a incerteza de saber como e quando avançar. A incerteza de sabermos se podemos eventualmente avançar…
É assim a vida de milhares de jovens que se vêm a braços com uma precariedade que lhes tolhe as expectativas e reveste o futuro de uma capa de transcendência tal, que os faz duvidar se alguma vez tiveram direito a “um futuro”.
Muitos crêem que apenas devem e não têm direito a nada. Porque foram anos a servir de cobaia às mais bizarras experiências de ensino, anos onde se passou de propinas quase inexistentes para propinas insuportáveis aos mais carenciados, onde para se receber uma bolsa de estudo é quase preciso declarar como residência oficial a ponte mais próxima! Para que depois lhes digam que afinal aquilo para que estudaram não foi mais do que uma trivialidade, e que se deviam dar por satisfeitos por terem trabalho. O futuro foi adiado quando nos disseram – estudem! E é novamente adiado quando perguntam depois, porque estudamos quando sabíamos que o futuro seria incerto! Porque um jovem com 18 anos deve ser apenas uma besta “útil”. Deve escolher não continuar os estudos, ou escolher estudar apenas aquilo que lhe dê “saída profissional” (arrepiante expressão cómico-trágica). Estranha liberdade, esta!
E o que é então esta precariedade?
Não é mais do que a incerteza de que falei acima. É o futuro adiado através de um mecanismo de auto-exclusão, que se alimenta da umbilical dependência de quem vive fragilizado dia-apos-dia.
A minha geração é capaz, mais capaz provavelmente que qualquer uma das anteriores, mas vive relegada ao espaço em lhe deixaram viver.
A geração dos nossos Pais deu-nos tudo de facto, menos a possibilidade de sermos realmente independentes. Muitos acham que nos deveríamos resignar ao que temos actualmente. Que somos mal-agradecidos por nos termos formado numa área, e acabarmos a reclamar porque  trabalhamos numa outra. Que não percebemos a importância do estudo, por si só e a sua transcendência metafísica, porque convenha-se dá sempre jeito saber recitar Voltaire numa caixa de supermercado, ou divagar acerca da evolução macroeconómica enquanto se serve 3 finos e um prato de caracóis Que fomos mal habituados e que na verdade gostamos é de viver em casa da família, e tem razão porque na verdade restam-nos sempre duas alternativas – partilhar um apartamento com outras 6 pessoas para o resto da vida ou imigrar. Opções essas há sempre!
É uma vida em suspenso que ameaça perpetuar-se caso tudo continue tal como esta. Alias, ira piorar. Quando num concurso já oferecem como “prémio” um estágio não remunerado, pouco mais se pode esperar.
Agora depende de cada um aceitar esta exclusão galopante ou começar verdadeiramente a reclamar um pouco mais de decência nas cada vez mais pornográficas dependências laborais.
Como fazê-lo?! Não tenho honestamente uma receita, mas acho que podíamos começar por aceitar que temos todo o direito a protestar e acima de tudo de ser livres.

Carmela Garcia, Ophelia III, 2001


Conflito (Ge)racional

Há um fosso (maior que o de Alvalade) entre a geração dos nossos pais e a nossa, que vai aumentando cada vez mais. Há uma sensação de mal-estar que aos poucos vai descendo sobre nos, um incomodo que nos incomoda pela incomodidade da situação. Passo já a explicar.
Há muito que pensava escrever sobre isto. Em primeiro lugar porque já escrevi textos a mais acerca do Sporting, e em segundo lugar porque de facto e apesar de estar longe do Berço, continuo a pensar em todos vos que sofreis com esse esquecimento lancinante imposto pela sociedade e que vos perpetra a alma (esta ultima parte devera ser lida numa tonalidade declamativa tipo Manuel Alegre).
Ora, na verdade segundo o calendário, hoje é sábado, mas como me tenho que fazer à vida fiquei por casa a trabalhar. E é precisamente por causa disto que vos escrevo.
Enquanto desenhava paredes e escadas, eis que desceu sobre mim qual Espírito Santo, mas sem aquela história da pomba, uma ideia que pôs em perspectiva todos os 5 minutos seguintes em que meditei sobre ela – hoje era o dia em que ia escrever acerca deste tema que me tem chateado um pouco.

Não é que me escandalize que existam entidades empregadoras que se puderem, evitam pagar salários a jovens licenciados. O que me chateia, vá lá, é haver jovens licenciados que aceitem e ate achem normal que não lhes paguem pelo trabalho que fazem. Porque o pequeno tirano que os dirige diz-lhes que eles não produzem, que ainda estão a aprender e que fazem muitos erros, que a experiencia na maquina fotocopiadora vai ser tao enriquecedora quanto três semanas de leitura intensiva de Kant, e uma serie de outras tretas que acabam com a celebre frase – mais lá para a frente “agente” vai reavaliar a tua situação
Ora, se vivêssemos num mundo onde a lógica imperasse (e eu como sportinguista sei bem que isso não é verdade) a primeira reacção de qualquer pessoa perante uma situação destas, seria muito delicadamente pedir ao patrão para pegar nas páginas amarelas, enrola-las em forma de cilindro, para produzir posteriormente um movimento vertical de inserção da dita lista numa certa área do corpo humano que eu não vou referir porque sou bastante educado!
Mas como vivemos num mundo, onde o bom senso é tão comum quanto os golos do Postiga, os jovens licenciados acham normal este tipo de tratamento porque acreditam que é difícil arranjar um local de trabalho para estagiar. A estes jovens eu só queria dizer uma coisa: Hello! Vocês estão a trabalhar de borla!!! O que a malta quer é gente assim! Que trabalhe sem receber, e que ainda por cima se sinta agradecida por ser escravizada! A trabalhar de borla vocês arranjam emprego em qualquer lado!
Perguntem ao vosso patrão se quando ele começou a trabalhar, também ganhava a módica quantia de 0 euros mensais (peço perdão – escudos, naquela altura eram escudos).
Ou melhor, vejam se um aprendiz de trolha, ou de caixa de supermercado também aceita ganhar 0 euros por mês. Vá lá, investiguem não tenham medo, que o vosso patrão não vos esta a ver neste momento. Ele provavelmente deve estar a analisar o currículo de mais meia dúzia que candidatos que vão ter o privilegio de trabalhar na vossa empresa.

Ora bem, apesar de a minha escrita navegar como um barco de borracha nas mares vivas de Vila do Conde, acho que deu para perceber que me chateia bastante que existam pessoas a fazer o estágio de borla.

Mas, o que me chateia ainda mais (é a décima vez que uso o verbo chatear) são a quantidade de jovens que apesar de alguns anos de experiência de trabalho infernizam numa condição de precariedade que terá tanta hipóteses de acabar quantas Portugal tem de um dia reduzir o défice a 1,5%.
é toda uma geração que entre os 20 e os 30 anos, não tem nem independência económica, nem independência psicológica (isto da independência psicológica um dia ainda explicarei). É toda uma geração que praticamente não contribui como deveria para a economia porque não tem capacidade para consumir.
No fundo minha gente, é de liberdade que vos quero pregar do alto deste monte.
é a falta dela e a a inerente falta de oportunidades que restringem os horizontes de toda uma geração, a um enquadramento do tamanho de uma moldura 10×15.
A geração dos nossos pais criou e monopolizou um sistema que ainda assegura que as gerações mais qualificadas são geridas e maltratadas pelas gerações menos qualificadas.
Mas sobre isto voltarei mais tarde para fundamentar estas acusações que por certo fazem espumar qualquer cinquentão convicto de si.
Finalizaria estendendo um abraço fraterno a todos os precários, dos quais eu não faço parte porque a certa altura apanhei um avião que me trouxe para um trabalho condigno. Mas não posso deixar de estar com todos vocês na luta.

Dá-lhe Falancio.


A luta começa…